por Marcos Barrero
Foi uma das minhas grandes admirações. Hoje, nem tanto. Em 1979, porém, lia tudo que ele escrevia, e o que escreviam sobre ele. Assim, convenci o escritor Gilberto Mansur, diretor da revista Status – concorrente da Playboy – a me dar passagens e dinheiro pra caçar o escritor Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba, em seu próprio território. Caçar como jornalista – ou seja, entrevistá-lo. Fui. Fiquei três dias em Curitiba, instalado num hotel do centro, na célebre Boca Maldita. E voltei com um perfil, longa entrevista e fotos raras e inéditas da infância do escritor. Deu oito páginas e chamada na capa da revista, edição de maio de 1980.
Não fui original nem genial. Fui jornalista. Obedeci a um princípio acaciano segundo o qual compete ao jornalista investigar, se jogar no fato e domá-lo assim como um toureiro, um El Cordobés, um Dominguín. Pra explicar melhor: fiz o contrário do que fazem hoje os repórteres pasteurizados, telefone em punho e produção na retaguarda. Minhas missões na profissão e na vida sempre foram solitárias. Prefiro assim. Pelo menos erro sozinho e presto contas apenas ao espelho partido de cada manhã.
Recém-chegado e refestelado na cama do hotel curitibano, planejei o ataque ao Vampiro. Fiz ligações a amigos, tentei por eles uma aproximação com o escritor. Ninguém quis me ajudar, mas todos se candidataram a falar. Notei vaidade ali. Na mesma noite, madrugada alta, uns cinco ou seis amigos íntimos do escritor, cometiam inconfidências à minha volta numa mesa repleta de garrafas vazias e copos cheios. Onde? No bar do hotel – nem precisei sair, a notícia veio a mim. Sentou-se à minha mesa e falou. Disse tudo o que eu queria ouvir, o que eu sabia e o que jamais supunha, o que perguntei e – muito mais – o que nem imaginei inquirir.
Fiquei com o perfil quase pronto. Dia seguinte, fui à caça do Vampiro. Tinha um mapa, desenhado no papel, de sua rotina – hora a hora do seu dia a dia. Resolvi então cercá-lo numa banca de jornal na Boca Maldita. Ali, diariamente, ele comparecia para folhear, meio escondido, revistas pornográficas. A dica dos amigos foi perfeita. Deu certo – me apresentei como professor, que de fato era, e com um gravador minúsculo no bolso de dentro do paletó, que usava como repórter da Jovem Pan, gravei um papo de quase uma hora com o autor de Virgem Louca, Loucos Beijos.
Havia levado uma primeira edição de Novelas Nada Exemplares, 1959, também recomendação dos amigos. Dalton enlouquecia com velhas edições de seus livros. Destruía todas que encontrava. Dizia que só valia a última. Quase insano, ele revisa todas suas obras a cada nova edição. Usei o livro como isca, apresentando-o para um autógrafo. O Vampiro ficou doido, propunha compra, troca, qualquer coisa pra ficar com o Novelas. E eu fiz o jogo, ganhei tempo, fui falando com ele e fazendo minha entrevista. Cedi, sim, mas quando quis – e troquei a edição da José Olympio Editora (a primeira do Vampiro por uma grande editora) por livros novos, também dele, autografados e dedicados a mim, ali mesmo na banca. Escreveu Marcos, vírgula, etc e tal, em letras miúdas. Nos despedimos amigavelmente. Ok, venci – já tinha o perfil e a entrevista. Podia ir embora. Fiquei. Continue lendo →