Até algumas horas depois de uma vitória da seleção num mata-mata na Copa, há algo diferente no ar. Uma alegria gratuita, uma leveza. Mesmo quem volta para o trabalho não volta com a mesma seriedade. Trabalhar é prazeroso. Estranhos se cumprimentam na rua.
A experiência da Copa do Mundo é, hoje, o que chega mais próximo de unir a totalidade do país torcendo por um mesmo objetivo —vencer o adversário externo— e esquecendo das diferenças políticas.
No resto do tempo, estamos divididos. Não tanto em nossas propostas para o Brasil —a maioria gostaria de um Estado mais eficiente, menos corrupção, combate ao crime eficaz, programas sociais melhores etc.— quanto em nossa desconfiança ou mesmo ódio para com quem pertence ao outro grupo político. É a “polarização afetiva”.
A polarização no nível atual é um obstáculo a uma política funcional. Quando gravar vídeos na rede falando mal dos adversários rende mais dividendos eleitorais do que trabalhar com eles para gerar soluções de consenso, os incentivos da competição política passam a trabalhar contra a melhora da sociedade. Os conflitos geram muito calor e fumaça, mas nenhuma luz.
Nosso contexto traz desafios inéditos, mas o fenômeno não é novo. É um dos problemas perenes da filosofia política, sob vários nomes, como faccionalismo: a divisão da sociedade em facções que lutam entre si e põem em risco o bem comum. Aristóteles apontava o risco de facções, grupos que julgavam não ter sua devida parte nos recursos, no poder ou no prestígio social, e que lutam violentamente entre si. São a antessala da tirania.
Dois mil e cem anos depois, o mesmo problema ainda tirava o sono de James Madison nos “Artigos Federalistas”. Muito mudara nesse meio tempo, inclusive a incorporação do conflito próprio das facções como um motor benéfico à sociedade, se mantido dentro de certos limites. A pura harmonia leva ao imobilismo. O excesso, no entanto, é letal. Como impedir que uma república com liberdade de opinião sucumba às facções e à guerra civil? “A liberdade é para a facção o que o ar é para o fogo.” Abolir a liberdade, contudo, seria uma cura ainda pior do que a doença.
Madison previa soluções institucionais: governo representativo, federação grande —com muitos interesses regionais—, divisão dos Poderes. Hoje, lá e aqui, todos esses arranjos estão em xeque. O imediatismo da opinião pública conectada coloca representantes contra a parede, colapsa distâncias e facilita a politização de órgãos e Poderes independentes. Já a China, ao suprimir em parte essa liberdade, se apresenta como uma solução funcional.
Há quem diga que o discurso sóbrio da IA pode remendar o que o barulho das redes rompeu. Suspeito, contudo, que a tecnologia sozinha não dará conta da polarização. Temos que nos educar para a cooperação e a independência. Teríamos não só uma política mais funcional, como uma sociedade mais feliz. A Copa não é a solução, mas nos permite sonhar com esse Brasil melhor.