15:14Tudo orna

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Há verbos que nasceram para a alta costura. “Ornar” é um deles. É combinar de forma harmônica. A gente pensa em uma cortina de linho que orna com o tapete, ou em um colar que orna com o pretinho básico. É o verbo do encaixe perfeito.

Mas a política brasileira resolveu apropriar-se dele. E funcionou.

Quando a Polícia Federal aponta que Valdemar da Costa Neto, cacique do PL, desviou R$ 119 milhões em emendas, a notícia choca, mas se acomoda. Um sábio do Centro Cívico, na coluna do Zé Beto de outro dia, com o cinismo de quem conhece o vaivém de Curitiba e de Brasília, cravou: “Orna com o entorno”. Orna com o histórico, com o fundo bilionário, com o presidiário, com o filho e com a patroa. Ninguém precisa dar nome aos bois.

A Folha de S.Paulo mostra a grife do Partido Novo. Entra Deltan Dallagnol, o paladino que desenhava PowerPoint para explicar o mecanismo do poder. Cassado pela Ficha Limpa e de olho no Senado pelo Paraná, o ex-procurador recebeu, por meio de sua empresa familiar, R$ 385 mil do fundo partidário. Rapaz! Não é que ele virou embaixador pra espalhar a ‘renovação política’, faturando R$ 42,5 mil por mês?

Os R$ 119 milhões de lá e os milhares de cá. O atacado escancarado e o varejo institucionalizado. Enfim, tudo orna.

O problema é o que sobra para a plateia.

Enquanto eles desfilam cifras e discursos finos, o cidadão comum veste o figurino de sempre: bolso vazio e a conta do desfile para pagar. Para compensar o nosso guarda-roupa escasso, eles nos oferecem mentiras sob medida, costuradas para a gente aplaudir. Cada dia com uma grife diferente.

Eles acham que mudam o guarda-roupa trocando o nome das coisas — de “emenda” para “embaixador”. Bobagem. A gente conhece o pano. Daqui de baixo, a gente só olha a cena e comenta baixinho:

— Combinou direitinho. Ornou!

Agora vou mudar minha conduta / Vou pra luta que eu quero me arrumar /Eu fui premiado pra herança / Com a nova dança que a moda lançou… (Noel Rosa – Com que roupa?)

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12:10Escravidão

Você pode fazer a Constituição que quiser. Por mais liberal, por mais igualitária que ela seja, sempre haverá pessoas que arranjarão maneiras de serem escravas das outras. (Millôr)

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11:20Renato Machado, adeus

Da FSP

Morre Renato Machado, ex-apresentador do Bom Dia Brasil, aos 83 anos

Jornalista estava internado em hospital no Rio de Janeiro. Ele trabalhou na Globo por 40 anos em diversos cargos

Ex-apresentador do Bom Dia Brasil, o jornalista Renato Machado morreu na manhã desta quinta-feira, aos 83 anos, na Clínia São Vicente, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. A informação foi divulgada pela GloboNews. O hospital ainda não informou a causa da morte.

Sua carreira na TV Globo durou quatro décadas, período no qual se firmou como um dos principais nomes do jornalismo brasileiro. Machado ingressou na Globo em 1982, depois de uma carreira no Jornal do Brasil, onde entrou no final dos anos 1960.

No ano seguinte, Machado passou a ser correspondente em Londres pela emissora. Da Europa, cobriu os atentados terroristas em Paris, em 1986, e o acidente nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia.

Entre 1996 e 2010, foi âncora e editor-chefe do Bom Dia Brasil, e mudou a cara o telejornal matinal da emissora, antes um noticiário político considerado pouco interessante.

Numa segunda passagem pela Europa, também como correspondente em Londres, acompanhou de perto a escalada do terrorismo no continente, a partir de 2011. Machado deixou a Globo em novembro de 2021, para se aposentar do jornalismo diário.

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8:54NELSON PADRELLA

(UM PEDACINHO)

Tudo o que foi feito, tudo o que não foi, sonhos mal sonhados, desejos incompletos, tudo o que foi nosso, tudo o que não é, cada desabraço, cada rosto amado que foi perseguido e nunca alcançado, é desse caldo informe que me nutro quando rememoro o tempo desse nosso outrora onde começava a construção disso tudo que hoje é memória, mas memória inexata, inventada um pouco, desvivida muito, quem sabe se não foi tudo um plano que falhou. Quem sabe se sabíamos que não seríamos premiados, e que não existe um pote de ouro no fim do arco-íris. Quem sabe se não nos mentiram quando prometeram o amor e suas delícias, e se a entrega houve já não importa, que não me lembro de nada, e se não lembro foi mentira. E todas aquelas pessoas que conviveram conosco, de quem fomos intimos na repartição de tudo? Não lhes guardo mais os traços, são pessoas que nunca existiram. E os sonhos da adolescência, a bravura de uma luta quando acreditávamos nas nossas bandeiras? Tudo ficou esquecido no passado, sobre tudo se assenta o pó do tempo.

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8:42Penduricalhos e pobreza

Como o Tribunal de Contas do Bananão peitou quem é contra os penduricalhos, o Gaiato da Boca Maldita, possesso por ser aposentado do INSS, deu uma sugestão para a bandalheira: “Coloquem tudo sob a rubrica ‘penduricalhos’, para que o povão saiba quanto todos precisam para ter um numerário que permita ao menos duas viagens ao exterior por ano – para respirar longe da gentalha pobre”.

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8:12Moro no Noroeste

Pré-candidato ao governo do Paraná, em três dias Sergio Moro (PL) visitou Alto Paraná, Paranavaí, Terra Rica, Nova Londrina, Loanda e Umuarama, no Noroeste do estado. Ao seu lado, sempre, a mulher, Rosângela Moro, deputada federal que vai disputar a reeeleição, e o deputado federal Filipe Barros, pré-candidato ao Senado. Em todos os lugares, casa cheia por gente que ouviu dele que a sua missão é ouvir sugestões, críticas e reivindicações da população para transformar essas demandas em propostas de governo”. E a explicação: “Ninguém sabe melhor o que uma cidade precisa do que quem mora nela”, como afirmou ontem à noite no Umuarama Country Clube (ver fotos) Por enquanto ainda não foi carregado nos ombros, mas se continuar assim,, principalmente quando sua candidatura for oficial, vai acontecer – mesmo porque lidera disparado todas as pesquisas feitas até agora. Assim é. Isso é política. Confira: Continue lendo

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6:42LEROS

de Carlos Castelo

Sou contra técnico da seleção brasileira usar terno. Não é uma posição estética. É estatística.

Olhemos o retrospecto. Sempre que um mister brasileiro resolveu parecer executivo de multinacional na beira do campo, a taça fez reunião em outro endereço. O futebol tem dessas superstições que os números não explicam, mas insistem em confirmar.

Tite desfilou uma elegância impecável em duas Copas. O terno caiu muito bem. A seleção idem. Felipão voltou em 2014 vestido como um chefe de Estado pronto para uma cúpula internacional. Acabou presidindo a mais traumática partida da história recente do futebol brasileiro. Dunga também flertou com o figurino social e foi para casa antes do previsto. Luxemburgo, e seus costumes escuros, nem chegou a estrear em Copa.

Enquanto isso, o Felipão de 2002 parecia pronto para conferir o gramado de um centro de treinamento, e não a passarela de Milão. Agasalhão, simplicidade, pentacampeonato.

Coincidência? Não sei. Mas o torcedor brasileiro é uma criatura que prefere uma crendice que funciona a uma lógica que fracassa.

Por mim, a CBF deveria proibir paletó em Copa do Mundo. O uniforme oficial do treinador teria de incluir moletom, tênis confortável e pronto.

Porque, se aparecer de terno italiano, já sabemos quem vai acabar vestido de luto. É evidente: há roupas que combinam melhor com cerimônias de premiação. E outras, infelizmente, com cerimônias de eliminação.

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6:27Se você não perder, a gente não ganha

por Conrado Hübner Mendes, na FSP

Regulação das bets é urgência constitucional nas mãos dos três Poderes. Alertas padronizados do mercado publicitário apenas fazem cócegas no vício

“Jogue com responsabilidade”, “saiba quando parar”, “jogue com moderação”, “defina o tempo que você quer apostar”, “aposta não é investimento”, “aposta é para adultos”, “apostar pode causar dependência”. São alertas padronizados do mercado publicitário, cláusulas de advertência para que bets evitem responsabilidade. Fazem cócegas no vício.

Esse modelo de negócio busca desresponsabilizar empresas do ponto de vista jurídico e culpabilizar indivíduos do ponto de vista psíquico. O apelo maroto ao livre-arbítrio esconde a compulsão movida à dopamina.

Algoritmos maximizam tempo de tela e volume de apostas, oferecem bônus, disparam notificações virais e gatilhos de urgência, usam cores e sons vibrantes para alimentar vício num universo de videogame. Pedem que você seja viciado na derrota e no prejuízo, mas sem perder a esperança de que a próxima aposta seja a redentora.

O governo, diante dessa agressividade comercial e algorítmica, e de seus impactos na saúde e economia públicas, tomou iniciativas. Novas portarias sobre publicidade exigem, entre outras coisas, o aviso: “Ministério da Fazenda adverte: Apostar pode causar dependência”, ou “Apostar faz você perder dinheiro” ou “Aposta não é investimento”.

Criaram obrigações para os “agentes operadores de apostas”. Um vasto grupo de todas “pessoas físicas ou jurídicas que produzam, promovam, patrocinem, divulguem, transmitam, distribuam, impulsionem ou veiculem ações de publicidade e de marketing”.

Devem observar os “princípios do jogo responsável”, a “transparência”, a “boa-fé”, a “proteção de pessoas vulneráveis” e “da saúde mental e financeira”. Vedam ações de comunicação que sugiram “obtenção de ganho fácil” e a “aposta como sinal de êxito pessoal”.

STF tem na pauta quatro ações a respeito. Três pedem declaração de inconstitucionalidade da Lei das Bets e a proibição desse mercado. Argumentos de proteção do consumidor, ordem econômica e direito à saúde, baseados em evidências, sustentam pedidos de proibição desse tipo de jogo.

Argumentos respeitáveis, mas talvez não seja plausível esperar que o STF se deixe persuadir pela proibição. Difícil segurar pressões políticas e econômicas decorrentes de decisão assim.

O debate mais urgente não está na escolha binária entre proibir ou regular, mas sim no como regular. O arranjo regulatório dependerá de concerto entre os três Poderes: o STF define obrigações e limites, o Congresso desenha a estrutura legislativa desse mercado, o Executivo especifica regras regulamentares e fiscalizatórias. Dependerá também daqueles lampejos de espírito público dos três Poderes.

Uma regulação à altura do projeto constitucional deve dar conta de pelo menos seis temas: autorizações por critérios de idoneidade; publicidade assertiva que conscientize usuário (adulto) do risco de dependência; algoritmo ético, que não incite compulsão; tributação que reverta parte da receita para o SUS; garantias de integridade esportiva para prevenir manipulação de resultados ou conflitos de interesse; limites a patrocínio.

Uma bet não deveria poder patrocinar esportista cujo desempenho define seus ganhos financeiros. Nem ser principal receita de clube ou de veículos de transmissão.

Flávio Dino disse: “Não é de hoje que se usa o slogan da liberdade para promover o vício”. Liberdade regulada é a única liberdade constitucional.

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14:45O FLAGRA DE HOJE

Darci Piana, Ronaldo Caiado e Ratinho Junior no almoço de hoje no restaurante Madalosso, em Santa Felicidade. Caiado ri e Ratinho parece estar pensando “podia ser eu”. Foto assessoria

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