

Mae West
Do Goela de Ouro
Nos últimos dias uma fumaça voltou a aparecer do acordo para liquidar a dívida das obras do estádio do Athlético Paranaense para a Copa do Mundo de 2014. Envolve o clube, a prefeitura de Curitiba, potencial construtivo, precatórios e o Fundo de Desenvolvimento Econômico (FDE) da Fomento Paraná. Parece confuso, mas não é porque quem viu garante que o rubro-negro ganha no fim.
Do Filósofo do Centro Cínico
Se o Brasil conseguir o título de hexacampeão, Neymar quer entrar em campo e levantar a taça, mesmo se não tiver dado nem um bico na bola. Ele tem a garantia da Nike em acordo com a CBF. Antes, contudo, quer pesar o troféu, pois ao erguê-lo, se for muito pesado, a lombar pode reclamar.
por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Heloísa olhava para a nova bancada com a desconfiança de quem acaba de chegar em Marte. Tudo ali era super plano, oculto, embutido — uma conspiração da engenharia para convencer o mundo de que a vida pode ser organizada em ângulos retos. As novas torneiras reluziam um brilho e tanto, e a torre de tomadas retrátil subia e descia com a precisão de um elevador. Era a vitória da modernidade. No entanto, quando ela recolheu do chão o velho rádio Zenith de um material que nem ela sabia explicar, com suas válvulas que demoravam três longos minutos de chiado antes de aquecer e cantar, Heloísa percebeu o impasse: o futuro que ela acabara de mandar fazer não parecia ter espaço para a poeira das suas memórias.
A reforma começou com a promessa de simplificar a rotina. “Menos é mais”, repetia o rapaz que desenhou o projeto. Heloísa aceitou os termos. Tentou se desfazer dos excessos, encaixotou o passado e assistiu à demolição da antiga cozinha com uma mistura de libertação e culpa. Mas logo descobriu que essa coisa toda arrumadinha não era a dela. Percebeu que esse tipo de organização não tolera o desalinho; exige panos de microfibra específicos, superfícies intocadas e uma disciplina quase militar. O novo cooktop de cinco bocas parecia um altar sagrado onde dava até pena acender o fogo e espirrar a margarina do cotidiano.
O verdadeiro confronto, contudo, deu-se na hora do acabamento. Com a bancada limpa, o técnico deu o trabalho por encerrado. A cozinha reluzia, livre de qualquer bactéria e perfeita, como o cenário de um comercial de televisão onde ninguém de fato vive ou chora. Foi quando Heloísa buscou o Zenith. Segurou o rádio pesado contra o peito, sentindo o cheiro de coisa antiga e eletrônica cansada, e tentou acomodá-lo no nicho planejado. Não coube. O rádio, que sobrevivera a tantas mudanças, parecia um bicho estranho naquele ecossistema de inox, granito e vidro temperado.
O técnico sorriu, me olhou com aquela cara de quem vê uma senhora analógica. “Esse aí já deu o que tinha que dar, dona Heloísa. Hoje em dia a senhora liga o celular direto por Bluetooth”. Ela não argumentou. Sabia que não adiantaria explicar que o Bluetooth não tem o tempo do afeto. O algoritmo não entende a beleza de esperar a válvula esquentar, aquela penumbra dourada que subia de dentro do aparelho enquanto a voz de um sambista antigo preenchia a sala, curando qualquer solidão de fim de tarde. O moderno resolve o presente, mas ignora o que fomos.
Sozinha na cozinha nova, Heloísa tomou a sua primeira decisão de resistência. Ignorou as linhas retas do projeto e empurrou o moderno aparelho de café para o lado. Abriu espaço à força. O Zenith, soberano e desengonçado, ocupou o centro da bancada. Quando ela finalmente ligou o rádio, a luz suave da válvula acendeu e foi refletir no vidro do cooktop. Levou o tempo de sempre — três minutos do bom e velho chiado, mas quando a música finalmente saiu de dentro daquele aparelho. A voz de Luiz Bandeira ecoou soberana, transformando o mármore frio em salão: “Que bonito é / Gafieira, salão nobre / Seja rico seja pobre / Toda gente a sambar…” A cozinha deixou de ser uma vitrine de loja e voltou, finalmente, a ser a casa de Heloísa.
por Vinícius de Moraes
A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.
Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!
Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gôooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança.
Pesquisa mostra que 58% pretendem votar em candidatos novos e só 29% preferem reeleger deputados federais
Oito em cada dez eleitores não pretendem votar “de jeito nenhum” em candidatos a deputado federal ou a senador que estejam associados a escândalos, como o dos roubos aos aposentados e pensionistas do INSS e o das fraudes do Banco Master.
Há 16% do eleitorado que admite a possibilidade de votar, mas, ressalva: depende do envolvimento do candidato. É o que mostra pesquisa MDA/CNT realizada na semana passada em 120 municípios.
Os casos Master e INSS disseminaram desconfiança em relação ao Congresso, que em outubro renova mandatos de 513 deputados e de 54 senadores.
por Fernanda Letícia de Souza*
Em tempos de futebol cada vez mais orientado por dados, a seleção brasileira entra na Copa do Mundo de 2026 cercada por uma aparente contradição: enquanto seu elenco é, em termos individuais, um dos mais talentosos e valiosos do torneio, os modelos estatísticos apontam um cenário de desconfiança. O contraste entre desempenho recente e potencial técnico ajuda a explicar a divergência entre chegar ao mundial como incógnita e, ao mesmo tempo, como candidato real ao título.
Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) evidencia esse paradoxo. De acordo com o modelo estatístico, que utiliza dados de 2.997 confrontos entre 187 seleções e simula cada jogo cerca de 100 mil vezes, o Brasil aparece apenas na 9ª posição entre os favoritos ao título, com 4,68% de probabilidade de conquistar o hexacampeonato. Seleções como Colômbia (5,56%) e Marrocos (4,90%) figuram à frente, sustentadas por campanhas mais consistentes no ciclo recente. Trata-se de um retrato quantitativo que não deve ser ignorado, mas que também não pode ser interpretado como sentença definitiva. Afinal, o futebol é um dos fenômenos mais difíceis de prever.
Ao analisarmos o desempenho da seleção sob o comando de Carlo Ancelotti, percebemos que os números fazem sentido quando confrontados com os desafios táticos observados em campo. O Brasil conta com peças de destaque no cenário internacional, como Vinícius Júnior, protagonista ofensivo e principal referência técnica, e Raphinha, que vive fase produtiva no futebol europeu. No meio-campo, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá oferecem dinamismo e criatividade, enquanto a defesa liderada por Marquinhos e Gabriel Magalhães apresenta solidez em nível individual.
No entanto, o problema não está nas peças, mas no funcionamento coletivo. A equipe tem demonstrado vulnerabilidade no espaço entre linhas, especialmente na transição defensiva, com laterais expostos e dificuldades de recomposição, um ponto crítico evidenciado em amistosos recentes. Somam-se a isso a oscilação na organização do meio-campo e a indefinição no comando de ataque, onde ainda se busca o “camisa 9” ideal.
Por outro lado, limitar a análise à fotografia do ciclo atual é reduzir o futebol a uma lógica puramente matemática. Diferentemente de outros esportes, a Copa do Mundo é um torneio de curta duração, altamente influenciado por fatores emocionais, entrosamento momentâneo e desempenho individual em jogos decisivos. Além disso, há elementos qualitativos que escapam aos modelos. O retorno de Neymar, ainda que após lesão, agrega experiência e capacidade de decisão. E, talvez mais importante, a comissão técnica experiente de Ancelotti oferece a possibilidade de ajustes rápidos ao longo da competição, fator que pode ser determinante em torneios eliminatórios.
O desafio brasileiro, portanto, não é reinventar seu futebol, mas encontrar equilíbrio. A história da Copa do Mundo está repleta de exemplos de seleções que chegaram desacreditadas e saíram campeãs. O Brasil de 2002, por exemplo, também carregava dúvidas antes do torneio e terminou levantando a taça. Em 2026, o cenário é semelhante: há questionamentos, inconsistências e estatísticas pouco animadoras. Mas também há talento, tradição e capacidade de evolução.
Entre números e expectativas, permanece uma certeza: o futebol não se decide apenas em algoritmos. E é exatamente nesse espaço imprevisível que o Brasil sempre cresce. Mais do que olhar para os 4,68%, é preciso reconhecer o que não se consegue medir em números: o peso da camisa, o brilho individual nos momentos decisivos e a capacidade histórica de superação.
Diante disso, acreditar no hexa não é otimismo ingênuo. É reconhecer que, quando talento, ajuste e confiança se encontram, o improvável deixa de existir.
*Fernanda Letícia de Souza é Especialista em Fisiologia do Exercício e Prescrição do Exercício Físico e professora da Área de Linguagens Cultural e Corporal do Centro Universitário Internacional UNINTER
por Vinicius Torres Freire, na FSP
Caso de Jaques Wagner não se compara ao de Ciro Nogueira, mas é um desastre. Quem sobra para criticar Estado tomado por corruptos, facções e orcrims empresariais?
As corrupções da política ainda vão ser tema relevante da campanha para presidente? A imundície está tão espalhada que dificilmente haverá flagrante grandioso o suficiente para tirar o país da resignação com a sujeira.
Não se trata de dizer que todo mundo é corrupto ou que todas as turmas políticas contem com corruptos de igual grandeza. Mas há rolo bastante para que candidaturas relevantes se joguem imundícies umas nas outras, em particular pelas redes. Sendo assim, as campanhas talvez deixem o assunto para lá. Será o consenso da podridão.
O lamento não é udenismo, lavajatismo ou demagogia picareta que o valha. Governos do país apodrecem rapidamente, o crime chegou ao poder em alguns estados, entramos na rota de sermos um Estado fracassado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu quantidade de pontos importantes, longe de letal, quando foi pego pedinchando dinheiro a Daniel Vorcaro e por ter mentido sem parar sobre seu caso de amor fraterno com o gangster. Mumunhas e delinquências recentes de sua família, como as do irmão Eduardo, não fizeram estrago maior.
A ficha corrida de Flávio e família poderia reemergir na campanha eleitoral. Os tropeços levaram até gente aliada da direita a plantar em jornais que se estuda alternativa à candidatura Flávio. Com imundície generalizada, as mutretas ainda vão fazer diferença, ameaçar candidaturas?
O senador Jaques Wagner (PT-BA) não é candidato a presidente. Apesar de amigão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministro de governos petistas e líder do governo no Senado, mal é conhecido fora da Bahia. A Polícia Federal acaba de tirar uns pedaços de corpos de gavetas de Wagner. Não se compara às covas coletivas dos Bolsonaro. Nem mesmo ao caso do também senador Ciro Nogueira (PP-PI), teúdo e manteúdo de Vorcaro, ex-ministro de Jair Bolsonaro e que até o início do ano queria ser vice de Flávio. Não refresca para Wagner.
O senador petista alega que ajudava a filha a comprar um apartamento, pedindo, digamos, uma espécie de empréstimo-ponte a um sujeito da turma de Vorcaro. Que fosse apenas isso. Imagine-se gente comum (e com alguma sorte na vida), que junta dinheiro de trabalho, vende carro e pede empréstimo a banco para comprar casa. O que vai achar? E quem não tem nada?
No mínimo, Wagner e pares preferem dever favor à ralé endinheirada, pegam carona em jatinho e confraternizam com escroques naquelas cafajestadas cafonas e arrivistas de fumar charuto e tomar uísque. Sim, isso é fichinha. Vide como o Congresso aprova medidas destrutivas da economia nacional, dando dezenas de bilhões a empresários suspeitos do setor elétrico, como está para fazer de novo. Quanto vai custar? Bem mais do que um charuto.
Há muito cadáver para sair do armário da corrupção. Política e Estado apodrecem sem parar. Afora policiais e promotores, pouca gente mais liga para o desastre do Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do estado (Alerj) estava infiltrada até a cúpula por facções, como Comando Vermelho ou Terceiro Comando. Quem mandava na Alerj e no governo era a turma do PL e aliados, turma de Flávio Bolsonaro.
No entanto, no mínimo, Wagner entrou em uma barca do inferno de Vorcaro. A extrema direita, que ganhou força também por velhas corrupções petistas, pode agora pensar em empatar o jogo da imundície ao menos no campo virtual. Se está todo mundo na lama ou assim parece, não é por aí que o eleitorado vai se decidir.
Assim veio:
O Diretório Estadual do PSD e o governador Ratinho Junior protocolaram nesta quinta-feira (18) uma representação na Justiça Eleitoral contra o senador Sergio Moro (PL) e o Partido Liberal. A ação questiona a utilização da imagem do chefe do Executivo estadual, que tem 85% de aprovação, durante o lançamento da pré-candidatura do parlamentar ao Governo do Paraná e sustenta que a estratégia buscou criar no eleitorado uma falsa percepção de alinhamento político entre os dois, apesar de Ratinho Junior já ter declarado apoio ao deputado federal Sandro Alex (PSD), escolhido pelo partido para disputar sua sucessão.
Protocolada no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), a representação aponta que a associação ocorreu durante o evento de lançamento da pré-candidatura de Moro no dia 29 de maio em Curitiba. Segundo o documento, imagens de Ratinho Junior foram exibidas em um telão justamente no momento em que Moro era anunciado ao público, em um contexto que relacionava lideranças políticas às candidaturas apresentadas no ato. Continue lendo