11:18Zé Dirceu na sombra em Curitiba

Do Goela de Ouro

O ex-ministro José Dirceu esteve em Curitiba muito recentemente. Visita na sombra, para pouca gente saber. Se reuniu com alguns deputados e empresários. Das conversas, o que interessa: o PT tem um arsenal de grande poder de destruição cujo endereço é a cabeça de Flávio Bolsonaro. Só não vão deflagrar de uma vez porque querem mesmo que o pré-candidato do PL à presidência vá para o segundo turno para ser triturado. Aqui no Paraná, Filipe Barros, pré-candidato ao Senado, está na lista dos alvos por conta do banco Master e Vorcaro. Segundo Dirceu, além de Ciro Nogueira, quem iria seguir o script que deu chabu era Eduardo Bolsonaro, mas a fuga para os Estados Unidos abriu espaço para o londrinense.

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9:09JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

O besteirol sobre a Copa do Mundo está de trincar. A torcida especialista misturou olho com repolho depois que o amontoado brasileiro foi despachado pelo Rola – e agora só fala em conspiração, política, Trump, Argentina ajudada por causa do Milei, Palestina, ladroagem, racismo, etc. Ninguém, mas ninguém mesmo, fala do principal personagem de qualquer partida de futebol do planeta: a bola, que é muito mais do que toda papagaiada e comanda o espetáculo, sempre. Experimentem um jogo sem ela ou tentar controlá-la.

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8:20Penduricalhos e tapetes

O prazo para os Tribunais de Justiça explicarem os penduricalhos ao STF termina hoje. Ao saber disso, o Gaiato da Boca Maldita riu debochado – e tascou: “Vai faltar tapete para encobrir tudo”.

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7:52Direto para o Carneiro no Buraco

O governador Ratinho Junior desembarca em Curitiba no domingo de manhã vindo dos Estados Unidos. Vai direto para Campo Mourão para participar da tradicional festa do Carneiro no Buraco. Os principais candidatos à sua sucessão estarão lá: Sergio Moro,Requião Filho, Rafael Greca e, obviamente, Sandro Alex, o escolhido. Os que disputam as duas vagas do Senado também. No Centro Cívico uma víbora venenosa não perdeu a oportunidade para perguntar: “Será que nas férias em Orlando o governador pensou bem sobre as eleições e, agora, em Campo Mourão, vai jogar alguém no buraco junto com o carneiro?”

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7:06Barriga cheia, alma vazia

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

A vida inteira ela esperou pelo príncipe que viria montado num cavalo branco. O problema é que o tempo passa, os mitos desbotam e, quando o bicho finalmente apontou na esquina, a realidade se impôs com o peso de um elefante. Do cavalo desceu Gabriel. Ele não tinha armadura, não tinha modos e tinha um cheiro, eca, que denunciava a recusa dele de encarar um chuveiro há algum tempo. Mas dividia os corredores da faculdade de Direito com Beatriz, e isso, na cabeça da moça, parecia o suficiente para lhe dar o aval necessário para superar os defeitos e levá-lo para o reino dos namorados.

A mãe de Beatriz assistia a tudo da poltrona, trocando olhares mudos com o neto pequeno. O garoto, com a inocência astuta da infância, já tinha sacado que aquele príncipe estava mais para ogro.

A grande surpresa que Gabriel preparou foi numa tarde de sábado. Do outro lado da rua ficava uma das panificadoras do bairro, exalando aquele cheiro de pão quente que costuma unir as pessoas. Gabriel cruzou a via e voltou trazendo um banquete particular: uma baguete francesa enorme, daquelas de carregar debaixo do braço, recheada de calabresa até as bordas, e uma garrafa pet de dois litros de Coca-Cola.

Voltou ao apartamento da quase futura sogra, sentou-se bem na ponta da mesa da sala. Não olhou para os lados. Não ofereceu um pedaço ao menino que o observava, não fez o gesto cortês de estender o copo à dona da casa, nem mesmo à própria Beatriz. Rompeu o plástico, abriu o refrigerante com um chiado alto e começou a comer. Sozinho. Uma ilha de egoísmo cercada por três pares de olhos perplexos.

Para aquela família, o pão não fazia falta. A geladeira estava cheia, a dignidade estava intacta e eles bem podiam atravessar a rua e comprar dez daquelas baguetes se quisessem. Mas a cena deixou um amargor que refrigerante nenhum conseguiria limpar. Enquanto Gabriel mastigava sua soberba disfarçada de fome, a mãe de Beatriz pensava no perigo daquela cena. Se ele era capaz de devorar o mundo sozinho ali, onde a fartura tornava o gesto apenas patético, o que faria ele se a vida os levasse para a escassez? A falta de educação, afinal, é um luxo de quem tem; quando encontra a miséria, ela vira crueldade.

A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte…(Comida –
Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto)

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6:32Ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido

por Marcos Augusto Gonçalves, na FSP

O futebol já cumpriu seu papel na formação de um ethos nacional marcado pela cultura imaginosa e mestiça. Continuar a ver no desempenho da seleção uma promessa ou um fracasso de nação é mecanicismo

A ideia do futebol, em especial aquele apresentado pela seleção, como uma espécie de expressão da nacionalidade, da alma brasileira e das capacidades e características do país já cumpriu seu papel. Houve um momento histórico, ao longo do século 20, que o nobre e rude esporte bretão ganhou novos contornos entre nós, como observaram alguns de nossos intérpretes –o mais recente e fulgurante deles, José Miguel Wisnik, em seu livro “Remédio Veneno”.

Praticamente reinventado por certa prontidão e jeito brasileiro de atuar, o futebol —parafraseando Wisnik— disse muito, com sua linguagem não-verbal, sobre algumas de nossas forças e fraquezas mais profundas, ajudando a ver sob outra luz questões centrais da formação e da identidade brasileiras.

De alguma forma Pelé, Garrincha, Didi, Romário e tantos outros coreografavam em campo as possibilidades de um país imaginoso, intuitivo e ao mesmo tempo eficiente e vencedor, que estaria construindo uma nacionalidade original, criativa, antropofágica e mestiça. Era o mesmo ethos nacional que se desenhava no território das artes, no samba, na bossa nova, na literatura, na arquitetura, no teatro.

Pois bem, tudo isso aconteceu. Não foi uma ilusão. Esses tijolos foram colocados. Pelé, João Gilberto, Tom Jobim estão lá. Fazem parte de nossas fundações, mas não voltarão mais. Não faremos novamente “Chega de Saudade”, assim como os americanos não vão recompor seus gloriosos standards.

Hoje, como sabemos, aquele ethos nacional está em crise, senão sob ataque, num ambiente em que pensar o futuro do Brasil é problemático.

Embora tenhamos nos habituado, ver no desempenho futebolístico da seleção uma promessa ou um fracasso de nação já não faz mais sentido. A repetição desse padrão fora de época transformou-se num modo de estabelecer relações menanicistas entre performance futebolística e performance do país. Jogamos mal, é culpa de nossa incompetência intrínseca como sociedade.

Na realidade, deveríamos hoje considerar o futebol com menos implicações na configuração da alma e dos resultados objetivos do Brasil.

Estamos numa época em que acompanhamos um esporte que é relevante para os brasileiros como para alguns outros países. Pesquisas apontam, aliás, crescente indiferença pela Copa. Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros declararam não ter interesse em acompanhar este Mundial, maior índice desde 1994.

Também não me pareceu (talvez surjam pesquisas a respeito) que a derrota para a Noruega tenha sido assimilada de maneira traumática como foram, justificadamente outros fiascos, como o sintomático 7 a 1 de 2014, além da inesquecível derrota do grande time de 1982.

Estou entre os que acreditam que a bagunça administrativa e a gestão corrupta dos últimos anos tornaram-se gravíssimas num mundo em que o esporte se globalizou e tornou-se muito mais competitivo.

É certo, porém, que o “processo” pode fracassar. Tivemos duas Copas e “processo” sob Tite, e fracassamos. Mas, sem dúvida, melhor com ele.

Ultimamente, assistimos à ascensão de uma excelência futebolística pós-colonial, com pretos e mestiços, nas seleções da França e da Espanha, que de certo modo reconfigura o ethos nacional dos dois países —enquanto a gigante Itália saiu do mapa.

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6:15A Era Neymar e a Era Gilmar

por Conrado Hübner Mendes, na FSP

Tipos bem diferentes nos afetos públicos brasileiros, vale observar onde se encontram. As faltas cavadas em campo encontram equivalentes funcionais nos ritos arbitrários e nas obstruções monocráticas do tribunal

“Onde você quer?”, perguntou o jogador. “Na trave, tenta na trave”, respondeu o goleiro feliz com a vitória.

Batido o pênalti, gastou tempo para encarar o goleiro e desafiar: “Comigo não, comigo não, otário”. Não correu para pôr a bola no meio de campo e tentar o empate. Não era conosco, era “comigo”. Não era com o time, era com ele. Sua fraqueza diante do goleiro simboliza o fim melancólico de toda uma era. Ou assim queremos crer.

Dia seguinte, ministro de tribunal supremo publica em rede social: “Encerrada nossa participação na Copa de 2026, fica a gratidão. Uma Copa do Mundo se constrói ao longo de anos, com disciplina e a enorme responsabilidade de todos que vestem a camisa verde e amarela. Agora, rumo a 2030, começa um novo ciclo”.

Conclui assim: “E a Neymar, uma justa homenagem à sua trajetória: ao representar o Brasil em quatro Copas do Mundo, nos emocionou com seu talento, categoria e gols que marcaram época. Minha gratidão por tudo o que representa para o nosso futebol“.

Logo abaixo do post, um aviso curioso: “Os leitores adicionaram contexto que as pessoas talvez queiram saber” (Readers added context they thought people might want to know). O contexto era: “Gilmar Mendes não mencionou, mas ele próprio e o filho têm grande influência na CBF“.

Abaixo desse raio contextualizador, alguns links de explicação: “Filho de Gilmar Mendes liga para presidentes de federações após denúncias contra Xaud”; “A caneta amiga de Gilmar Mendes”; “Enquanto a Copa rola, filho de Gilmar Mendes exerce seu poder na CBF”.

As notas da comunidade da rede de Elon Musk fizeram o que instituições de Estado se recusam a fazer: reconhecer e dar transparência a conflito de interesse.

O inusitado esclarecimento de leitores para leitores joga uma dúvida na qualidade republicana da “gratidão” afirmada duas vezes por Gilmar. Mas ainda não marca o fim de uma era, que só deve chegar com sua aposentadoria em 2030, se tudo correr dentro da instável normalidade constitucional brasileira.

Neymar e Gilmar contribuíram como ninguém para desagregar e sobretudo avacalhar a instituição coletiva da qual participam. Ambos protagonizaram a transformação da respectiva instituição em motivo de desconfiança, vergonha e falta de autoridade. São obstáculos individuais corrosivos ao projeto de uma jurisprudência constitucional que proteja nossos direitos e liberdades, por um lado, e de um padrão de jogo consciente de sua responsabilidade, por outro. As faltas cavadas em campo encontram equivalentes funcionais nos ritos arbitrários e nas obstruções monocráticas do tribunal.

O colapso constitucional e futebolístico não se faz com rupturas abruptas, mas por meticuloso deboche clepto-interessado.

Ao final dessas eras o que vai sobrar? Já se sabe que restarão instituições fraturadas por projetos pessoais e familiares cercados por rede de parças e bajuladores que lucram com a degradação. O mais fantástico é que os legados não são parecidos por mera coincidência.

A comunhão entre CBF e STF está documentada. E nos autoriza a desconfiar, de boa-fé, dos interesses por trás de cada decisão, cada liminar anulatória, cada contrato de patrocínio, cada convocação, cada escolha para cobrador de pênalti.

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17:26JAMIL SNEGE

Tenho procurado por
todos os meios me destacar
dos demais.
É minha a intervenção mais
inteligente, o lance
intelectual mais audaz.
Procuro as luzes do palco
com o mesmo fervor
com que o peregrino procura
a tua face.
Que tolice, Senhor.
Dentro de alguns anos, numa
tumba escura, que
artifícios usarei para
chamar a atenção sobre o meu
pobre crânio descarnado?

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16:05JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, pesquisa revela que Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados com 35% das intenções de votos no primeiro turno. Se a coisa continuar assim até outubro, em vez do segundo turno, os dois poderiam disputar a presidência numa disputa de pênaltis, já que a Copa do Mundo está fazendo sucesso. A diferença é que o gol seria abolido e também não haveria goleiro. Assim, os dois ficariam chutando pra sempre e com as respectivas torcidas mugindo sem parar. Enquanto isso, quem sabe, o país teria tempo para tentar descobrir um caminho suave, como a cartilha.

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15:22LEROS

de Carlos Castelo

§ A CBF acaba de provar que, no Brasil, a derrota não é um revés: é um plano de carreira. Carlo Ancelotti caiu nas oitavas e, em vez de receber uma mala, recebeu um cofre. Vinte por cento de aumento, vínculo até 2030 e seis milhões por mês (quantia suficiente para comprar silêncio, paciência e talvez um lateral-direito).

É uma filosofia administrativa comovente. Enquanto o trabalhador brasileiro precisa vencer o sono, o ônibus e o chefe para justificar um reajuste de vale-refeição, o técnico da Seleção precisa apenas ser eliminado precocemente da Copa. O fracasso, quando fala italiano, deixa de feder a vexame e passa a cheirar a projeto.

A CBF descobriu o luxo de chamar insucesso de continuidade. O torcedor olha para o contrato e logo entende: no futebol brasileiro, quem perde é o jogo; quem vence é o contracheque.

Ancelotti talvez nem tenha culpa. Culpa tem o país que transformou a bola em religião, a derrota em liturgia e o aumento salarial em sacramento.

No altar da cartolagem, até eliminação vira bênção. E o dízimo, claro, é pago ao santo derrotado

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