16:49AGENTE SECRETO, A CRÔNICA

por Carlos CasteloHoje acordei com um agente da CIA debaixo de minha cama.
O maior susto, no entanto, foi ele reclamar da poeira.
— Você precisa melhorar seus protocolos de limpeza — disse, anotando alguma coisa num bloco.
Pensei que estivesse sonhando. Afinal, não é todo dia que alguém encontra um espião norte-americano escondido entre uma pantufa órfã e uma revista de palavras cruzadas de 2019.
— O que o senhor está fazendo aí?
— Monitoramento preventivo.
— De mim?
— Não exatamente. Do bairro. O senhor apareceu por acidente estatístico.
Era o tipo de resposta que só um serviço secreto ou o aplicativo do iFood poderia dar.
Levantei, fui fazer café, e o agente me seguiu com a naturalidade de quem já tinha decorado a planta da casa.
Segundo ele, depois das notícias sobre facções brasileiras entrarem no radar internacional como possíveis organizações terroristas, a burocracia global havia enlouquecido.
Computadores cruzavam dados, detectavam padrões e relatórios eram produzidos em velocidades incompatíveis com a leitura humana.
— Ontem investigamos um sujeito porque ele comprou cinco pacotes de Miojo.
— E era terrorista?
— Não. Era inadimplente.
Anotou mais alguma coisa.
Perguntei se os Estados Unidos realmente entendiam o Brasil.
O agente soltou uma risada.
Foi a primeira coisa de fato assustadora naquela manhã.
— Nós passamos décadas tentando entender o Oriente Médio. O Brasil tem reunião de condomínio, coxinha, grupo de família. É muito mais complexo.
Concordei.
Expliquei que o verdadeiro centro de operações estratégicas do país não era nenhuma facção criminosa, mas o grupo de WhatsApp dos moradores de prédio. Ali se espalhavam boatos, teorias conspiratórias e áudios de oito minutos gravados por pessoas caminhando na pracinha do bairro.
O agente ficou pensativo.
— Temos monitorado satélites, portos e redes financeiras. Nunca pensamos nisso.
Em seguida, foi anotando com fúria no bloquinho.
Ao meio-dia chegaram mais dois agentes. Um entrevistou o síndico. Outro desapareceu depois de ouvir uma discussão sobre vagas de garagem. Deve ter sido considerado morto em combate.
No fim da tarde, o primeiro agente arrumou suas coisas.
— Concluímos que o senhor não representa ameaça internacional.
— Que alívio.
— Porém…
Nunca existe frase mais perigosa que um “porém” pronunciado por alguém de crachá.
— Detectamos que já respondeu “vamos marcar” sem qualquer intenção de marcar.
Baixei a cabeça.
— Isso é crime?
— Não. Mas demonstra comportamento brasileiro avançado.
Ele apertou minha mão, agradeceu e saiu pela porta.
Antes de dormir, olhei embaixo da cama. Estava vazia. Pela manhã, o espião estava escondido ali. À noite, não mais.
Em compensação, ao me abaixar, encontrei duas cobranças e um boleto do IPTU ainda em data de validade.
Valeu alguma coisa ter sido alvo da CIA.

(Publicado no Brasil de Fato RS)

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9:32É hoje o dia de Greca

Rafael Greca lança hoje (20) sua pré-candidatura ao Governo do Paraná pelo MDB. O evento será realizado na Sociedade Thalia, no Centro de Curitiba, das 10h às 13h, e será aberto ao público. De olho na movimentação estão o grupo do governador Ratinho Jr., que quer levar o ex-prefeito para ser vice na chapa encabeçada por Sandro Alex, e o do senador Sergio Moro, líder das pesquisas, que avalia tal união com um empecilho para vencer a disputa no primeiro turno.  

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8:52Celepar fora

A Fomento Paraná está aumentando seu capital de R$ 4 bilhões para R$ 6 bilhões. A Celepar, que era uma das acionárias, foi substituída pela Cohapar, segundo a mensagem do projeto de lei enviado em regime de urgência pelo governador Ratinho Jr., à Assembleia.

Confira: PL 500

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8:46JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

O governador Ratinho Jr. viaja para Orlando, EUA, com a família, nesta última semana de junho Vai a descanso de 10 dias, mas nem tanto. Depois do jogo de ontem, para que não seja criticado por deixar temporariamente a campanha de Sandro Alex ao governo do Paraná, decidiu pedir pessoalmente ao técnico Ancelotti que escale Hendrick desde o começo das próximas partidas da seleção na Copa.

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8:17O Supremo não submerge

por Luis Francisco Carvalho Filho, na FSP

Gilmar Mendes quer sujeiras do Banco Master debaixo do tapete. O tempo passa e o STF permanece vulnerável

Em tempos de crise, uma das estratégias é submergir. Mas nem todos conseguem. Nem sempre é possível. Exposto demais, um enorme passivo de relações pessoais suspeitas sob o escrutínio da PF, o Supremo Tribunal Federal é proeminente, conflituoso. As decisões de seus ministros são capazes de desviar o curso dos acontecimentos.

Ao enfrentar publicamente o ministro André Mendonça, a sua condução do inquérito no caso do Banco Master, durante o julgamento da prisão preventiva do pai e do primo de VorcaroGilmar Mendes planta dúvidas jurídicas e processuais, legitima sentimentos de abuso e nulidades. É voto vencido. Mas é o decano. Tem o prestígio de ser articulado, destemido, poderoso. É fio de esperança para quem não quer delatar e para quem teme a delação.

Nos últimos meses, apareceram notícias constrangedoras para magistrados do próprio STF, senadores, deputados, governadores, ministros, candidatos de variados partidos, presidentes da Câmara e do Senado, hoje todos interessados em sepultar as investigações, particularmente quando elas se aproximam das conexões políticas do banqueiro preso e de sua espetacular generosidade em matéria de dinheiro, viagens e festas.

Ao votar, Gilmar Mendes faz comparação com a desmoralizada Lava Jato. É parte do plano de varrer, para debaixo do tapete, as sujeiras das ligações impróprias, perigosas e íntimas de agentes do Executivo, Legislativo e Judiciário com o empresário encurralado.

As revelações sobre os negócios hoteleiros de Dias Toffoli e os contratos advocatícios da família de Alexandre de Moraes fizeram ruir a credibilidade do Supremo nas pesquisas de opinião.

Outro foco interno de disputa é o Código de Ética encomendado pelo presidente Edson Fachin —para o desapontamento não disfarçado de colegas de tribunal. A ministra Cármen Lúcia diz que o código é “resposta necessária” e que “muito antes” do fim do ano vai entregar a proposta, que, a rigor, pode ser arquivada ou esquecida.

Uma cadeira do Supremo permanece vaga desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso em outubro de 2025. A rejeição do nome de Jorge Messias pelo Senado revela a fragilidade do governo Lula. Ele terá força política para preencher a vaga antes de vencer as eleições? Qual o preço de Davi Alcolumbre para estar de acordo com Lula?

Se Lula for derrotado em outubro, seu sucessor ganha de presente a oportunidade de indicar novo ministro para o STF no primeiro dia de governo —além das três aposentadorias compulsórias previstas para o período (Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes). Mudaria a correlação interna de forças. Até 2030, a família Bolsonaro teria maioria, com a nomeação de pelo menos seis (dois por Jair, quatro por Flávio) dos 11 ministros do tribunal. Um pesadelo institucional.

Depois dos primeiros ataques de Trump (cancelamentos de vistos, Lei Magnitsky), ressurgem pressões externas. O errático Departamento de Estado dos EUA diz que a condenação de Eduardo Bolsonaro, pela 1ª Turma do STF, é perseguição.

Em maio, a Justiça da Itália anulou a extradição de Carla Zambelli pela suposta parcialidade do ministro Alexandre de Moraes, o próximo presidente do Supremo.

O tempo passa e o STF permanece vulnerável. No olho do furacão.

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8:11Olha o alarme! É mentira!

O alerta explodiu no começo da madrugada em milhões de celulares no Brasil. Seria avisando a a possibilidade de ocorrência de evento extremo segundo a Defesa Civil. A mensagem “misantropia” apareceu nas telinhas, ou seja, desprezo pela espécie humana. Tudo falso. Teve gente que pensou que era um torcedor do contra expressando indignação pela primeira vitória do Brasil na Copa.

 

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17:03Pelé antes da Copa de 1958

por Nelson Rodrigues

“Depois do jogo América x Santos seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura que o meu confrade Laurence chama de ‘o Domingos da Guia do ataque’. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: – 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem: – verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se ‘Imperador Jones’, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: – ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés.

Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônia. Já lhe perguntaram: – ‘Quem é o maior meia do mundo?’. Ele respondeu com a ênfase das certezas eternas: – ‘Eu’. Insistiram: – ‘Qual é o maior ponta do mundo?’ E Pelé: – ‘Eu’. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar.

Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: – ‘Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!’

De certa feita, foi, até, desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe, ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta, sensacionalmente. Numa palavra: – sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para brilhar. Não existia uma defesa. Ou por outra: – a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo que faz de Pelé o craque imbatível.

Quero crer que a sua maior virtude seja, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés numa lambida docilidade de cadelinha.

Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete.

Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e, mesmo, insolente de que precisamos. Sim, amigos: – aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro times entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós”.

*Publicado em março de 1958 na Manchete Esportiva

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