17:11O HOMEM SÓ

de Antonio Maria

Deixo-me ficar no canto mais refrigerado da boate, sozinho, ansioso por continuar sozinho. À minha direita, um cidadão exageradamente magro, com os ombros em desenho de âncora e uma dessas bocas que, em certos rostos, envelhecem antes dos olhos e dos cabelos. Conheço-o de ouvir dizer e sei que o seu maior empenho é passar por ex-perigosíssimo gangster. Examino-o. Não tem nada de Bogart ou de Raft. Nem sequer teve parecença com Hercule Poirot, dos “policiais” de Agatha Christie. Tira a cabeça do prato e elogia o cantor, puxando conversa. Concordo, com um gesto de cabeça. Anima-se e diz uma frase, em espanhol, definindo a vida. Gostaria de ter-lhe avisado que sua definição ainda não era irrevogável definição de tudo isso que estamos fazendo ou fingindo fazer. Mas não lhe disse nada e o desesperanço de qualquer entendimento entre nós, pelo menos naquela noite. Essa coisa de a gente ficar sozinho é, de vez em quando, muito importante. O convívio distrai muito, abstrai muito. E é preciso que a gente se fixe, ao menos uma vez por dia, no exame de certas pessoas. Nós somos muito atacados. Ninguém se livra da campanha constante de um inimigo medíocre e desonesto. E é preciso pensar nele um pouquinho, porque a perseverança dos medíocres é, no fim das coisas, uma adição de certa força. Então, penso nos meus possíveis inimigos, não com vontade de destruí-los, mas desejoso de que eles sejam menos inquietos e mais amáveis, mais tranquilos e decentes. Penso em construí-los, então. Não por ambicionar que eles resolvam amar-me, de um momento para outro. Mas para que ao menos eles durmam sem sobressaltos, suas noites de medo, em companhia de sua vigente insegurança. Noutra mesa mais distante, há uma senhora de óculos. Fala e ri livremente, numa espécie de simpatia além de qualquer modelo de bons modos, comum e invariável nas mulheres do “Society” diário. Bate nas costas do companheiro ou lhe acende o cigarro na brasa do seu. Mas em tudo isso muito bonita, de óculos, prendendo-me a atenção pela beleza dos seus maus modos. Depois, um pouco mais à esquerda, formou-se uma mesa de políticos. O político brasileiro, numa boate conversa de um jeito especial como quem já sabe de todas as coisas apuradas ou ocasionalmente futuras. Não sei se posso descrever-lhe o ar. Mas fala com a cabeça baixa e os olhos levantados, existindo certo mistério e grande convicção. Há coisas que são ditas entre dentes. Outras não são ditas, mas entendidas, num simples manejo lateral de cabeça. No fundo, eles não sabem de nada, nem vão resolver coisa alguma, porque, na maioria, são políticos de conquistas, apoios e oposições pessoais. Mesmo assim, convencem-me de sua autoridade sobre mim, por exemplo, que sou povo, da maneira mais lírica possível — povo! Continuo sozinho, preservado por uma série de acasos. Bastaria que entrasse um conterrâneo, um colega de jornal, um credor, e teria eu que sair da intimidade que estava tratando a mim mesmo, para dividir-me ou compartilhar, para fazer concessões e, certamente, constranger-me. Lembro-me de um amigo que morreu e da minha falha em não ter improvisado certa coragem de abraçar sua família. Penso numa conhecida, de quem imaginei vir a ser um convívio útil, leal, bom. Mas ela, sem se aperceber disso, não me quis para nada. A seguir, vou-me tornando ambicioso. Agita-me a ideia de viajar outra vez e de poder descansar de tudo quanto venho fazendo sem tréguas, escrevendo, escrevendo… As certezas que tenho de mim mesmo sobrevivem às suposições que de mim fazem. Mas é preciso que o homem se realize dentro de suas certezas e não à base do que dele se pensa ou se diz. Eu só tenho dado o que de mim esperaram. E recebido, sempre gratamente, sem medir ou pesar. O homem está sempre além e aquém do juízo e da confiança do seu próximo. Nunca foi pensado ou dito exatamente de mim. Na maioria das vezes, pensaram demais. Em tristes e resignadas ocasiões, pensaram de menos. Mas é bom que nunca acertem a fim de que o homem se mantenha irrevelado para, naquela rara intimidade de si mesmo, sentir-se consolado ou perdido, morto ou vivo, mas irrevelado e intenso.O pianista toca uma canção desconhecida. O homem à minha esquerda (o que não se parece em nada com Bogart) mastiga com algum barulho. A moça de óculos tira os óculos. Os políticos começam a comer. E no rosto do cigarreiro que, à esquerda de mim, recebe uma gorjeta, descubro uma ingênua melancolia. Mais nada.

*Mesa de pista, 28 de janeiro de 1956

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16:49NELSON PADRELLA

Preciso de um hiato, mas um hiato raro, que fosse como as perfumadas asas dos anjos do Senhor. Faria desse hiato meu barco, e escaparia dos temores pelas tumultuadas águas do rio magico, com Caronte remando feito o louco que sempre foi.

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8:28Ingenuidade da bola

por Diego M. Salomão

A última Copa foi particularmente desgastante, apesar de divertida. Divertida, claro, pelo aspecto técnico, porém, desgastante por uma politização desmedida e absolutamente panfletária. Entenda: não sou ingênuo e claro que futebol é político também, mas como diria Freud, há momentos em que um charuto é apenas um charuto.

Muito se questionou a FIFA por um suposto favorecimento à Argentina, que perdeu a Copa e teve um jogador expulso na final, mas mais do que isso: agora os historiadores formados pela Uninstagram decidiram cavoucar e questionar os três títulos ganhos pelos argentinos anteriormente. Sinceramente? Não sou contra, mas se é pra mexer em passado, que se mexa direito!

Começando do começo, quero saber por que Mussolini escalou os juízes em todas as partidas do título italiano em 1934. Também adoraria saber por que o nosso Mané Garrincha foi expulso na semifinal de 62 e com uma canetada no melhor estilo Donald Trump a FIFA revogou sua expulsão e ele pôde jogar a final. Bem verdade que na época não havia suspensão automática, mas por que não houve julgamento do caso? Falando em FIFA, aliás, não é meio suspeito que o presidente da entidade, um inglês à época, tenha escalado um bandeirinha da União Soviética numa final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental, lembrando que era o auge da Guerra Fria (evidentemente a Inglaterra ganhou)?

Também é um pouco questionável que Pelé tenha jogado a final de 1970, sendo que merecia ter sido expulso na semifinal contra o Uruguai ao desferir uma cotovelada no rosto de um adversário. Se a Regra tivesse sido aplicada corretamente, ele não teria jogado a mítica final do nosso tricampeonato.

E aí, sim, podemos falar da Argentina. O que diabos o governo Videla queria com a Federação Peruana e por que o juíz não anulou um gol de mão de Maradona, oito anos depois? Antes de finalizar meus questionamentos, uma última pergunta: por que os juízes roubaram descaradamente para o Brasil na campanha do penta, nos jogos contra Turquia, com um pênalti inexistente para nós, e contra a Bélgica, anulando um gol legítimo dos belgas?

Na verdade, todas essas perguntas têm uma resposta clara: não é a Argentina. É o futebol que é podre e todas as federações são coniventes. Ou você entende e aceita isso, ou para de assistir. Agora, assistir e ficar atribuindo qualidades de bem e mal, como se estivéssemos num filme de Star Wars ou dos Vingadores, é no mínimo ser muito ingênuo – ou um grande filho da puta, por escolher apenas um lado para vilanizar.

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8:17Cristina muda no palco e com dois obstáculos

Ontem na convenção do PSD, a jornalista Cristina Graeml entrou muda e saiu calada, apesar de estar no palco das autoridades. Levou uma claque, mas ouviu discursos dos colegas de partido e, depois, disse em entrevisa que espera a definição de Ratinho Junior sobre a possibilidade de ser candidata a vice de Sandro Alex ou se vai disputar uma das duas cadeiras do Senado. Neste caso, quem vem aparecendo na foto ao lado do candidato do governador é o deputado estadual Alexandre Curi, do Republicanos. Este e o prefeito Eduardo Pimentel, que apareceu, discursou, mas se mantém afastado do panorama confuso deste aquecimento de turbinas para a campanha de fato. Os dois são grandes obstáculos às pretensões de Cristina – por motivos óbvios. Talvez por isso recentemente ela tenha aparecido com roupa de super-heroína em propaganda do partido. Vai precisar de muitos poderes para, então, poder falar o que pensa e pretende.

 

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7:50JORNAL DO CÍNICO

Do Filósofo do Centro Cínico

A piada de ontem à noite é que o governo dos EUA divulgou uma nota negando qualquer intenção de influenciar nas eleições do Brasil. Verdade! Tá certo que fizeram isso depois de uns gritos do sul do mundo com a presença de bisbilhoteiros oficiais que vieram “discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão”. Bonito, não? Mas ainda há risco de eles pedirem que as urnas eletrônicas abriguem o nome e a foto de Trump indicando em quem votar para presidente. Sim, é o filho de Jair, mesmo porque isso facilitaria a escolha do embaixador brasileiro que já está lá, aquele maluquete Eduardo. Sobre Flávio, o candidato, o departamento de mentiras da Casa Branca pensa até em sugerir que na campanha dele se adote o slogan “O homem preferido de Trump”. Não seria bacana?

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6:45A odisseia de Dirceu

por Carlos Castelo

Todo temporal escolhe um homem para servir de exemplo. Naquela noite, o eleito foi Dirceu, vendedor de pneus. Não vendia ilusões, apenas pneus: redondos, pretos, resistentes. Gostava de dizer que conhecia a alma das ruas. Ironia. Naquela noite mal conseguiria vencer o caminho entre a zona oeste de São Paulo e o apartamento onde Matilde o esperava.
A chuva começou ainda no fim da tarde, dessas que parecem rasgar uma caixa-d’água no céu. No rádio falavam em alagamentos, árvores caídas, linhas interrompidas. O trem atrasou. Cinco minutos. Quinze. Depois o painel passou a exibir aquelas duas palavras que definem o caos: sem previsão.
Dirceu aguardou.
Quando desistiu da plataforma, lançou-se ao ônibus, já lotado. Espremido entre uma senhora de guarda-chuva pingando e um rapaz abraçado a uma televisão de cinquenta e cinco polegadas, teve a impressão de embarcar num navio condenado.
Foi aí que começou sua odisseia.
Cada quarteirão escondia um obstáculo. Um córrego transformado em mar Egeu. Um caminhão levantando muralhas de água. Um fiscal de trânsito gesticulando inutilmente, como o sacerdote de um deus aposentado. O ônibus avançava aos solavancos, como se remasse.
O celular vibrou.
“O Clóvis bebeu de novo. Está batendo na porta.”
Clóvis, o vizinho viúvo, descobria na terceira cachaça uma vocação para pretendente de Penélope. No caso aqui, Matilde.
Então, o ônibus morreu.
O motorista anunciou que não seguiria viagem. Os passageiros desceram resignados, náufragos desembarcando para outro naufrágio.
Dirceu começou a caminhar. Água pelos tornozelos. Depois pelos joelhos. Sacolas boiando como medusas. Sofás navegando rua abaixo.
Na primeira esquina surgiu uma moto. O capacete de viseira espelhada transformava o piloto num gigante de um único olho.
— Passa o celular. Continue lendo

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6:16Lula tem a campanha dos sonhos com Flávio nas cordas

por Elio Gaspari, na FSP

Briga com Michelle e encrenca com Vorcaro não redundaram em alterações significativas no quadro eleitoral. Pergunta de US$ 1 milhão é saber por que campanhas de Ronaldo Caiado e de Romeu Zema não decolam

Flávio Bolsonaro foi para a convenção de seu partido, o PL, e só dele. Uma tragédia, o centrão declarou-se neutro, leia-se aberto a um entendimento com outros candidatos, inclusive Lula. O bolsonarismo dinástico levou a direita para as cordas.

O que se apresenta como uma situação de estabilidade de fato o é, mas o filme tende a terminar com Lula no Planalto pela quarta vez. O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos sonhos de Lula.

Em maio, Lula havia ampliado de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio (40% a 31%). O Datafolha de sexta-feira indica que a vantagem seria de cinco pontos (48% a 43%), com Lula a três pontos da maioria absoluta. Se não acontecer nada, Lula ganha a eleição.

Em agosto de 1989, Lula patinava, e um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola era fava contada. Lula tomou o lugar de Brizola e foi derrotado.

Lula continua travado na barreira da dissonância. Ele continua liderando a disputa, mas seu governo é mal avaliado por um percentual maior (38% de ruim ou péssimo) do que o dos satisfeitos (32% de ótimo).

Agora, a diferença é de um fio de cabelo (1%), mas é uma diferença. Além disso, 23% acham-no regular. Afinal, no seu quarto ano, o Lula 3.0 continua sem marca. Seu maior capital continua sendo o repúdio ao bolsonarismo.

Refletindo a polarização, os dois candidatos têm rejeições semelhantes. A briga com Michelle e os detalhes de suas transações com Daniel Vorcaro tiveram pouco impacto na campanha de Flávio.

Seu patrimônio é o eleitorado que não vota em Lula de jeito nenhum. Se for o caso votam num rinoceronte, mas Lula, não. Se Lula tivesse se metido nas encrencas em que Flávio se meteu estaria fora da disputa.

A pergunta de US$ 1 milhão é por que Ronaldo Caiado e Romeu Zema patinam num só dígito. A campanha ainda não começou, mas nenhum dos dois fixou uma marca.

Caiado mostrou-se goiano demais, e Zema tem um jeito monótono de mestra-escola. Mesmo assim, ambos têm desempenhos que justificariam pontuações mais robustas.

Temas para dar identidade a um candidato não faltam, uma política de segurança sem chacinas, um política externa menos alegórica, um país mais normal.

Um presidente que só promete o que poderá entregar, mandando ao arquivo as peças de marquetagem do Programa de Aceleração do Crescimento, que virou terreno baldio, onde se joga o que não se sabe onde guardar.

Registro histórico

Trump, Rubio e os Bolsonaro avacalharam as relações do Brasil com os Estados Unidos transformando-a em assunto de palanque. Coisa muito mais séria já aconteceu e ficou esquecida.

Milei fez uma ursada

Vindo ao Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro, Javier Milei fez-lhe uma ursada. Se a Argentina tivesse ganhado a Copa, ele seria um presidente libertário e campeão. Derrotada e malcriada, a seleção argentina tisna a imagem de Milei.

Para Flávio, teria sido melhor se ele ficasse em Buenos Aires.

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17:04O PT de Requião Filho

Da assessoria do PT do Paraná

PT-PR confirma Lula presidente, Gleisi e Rosinha ao senado e apoio a Requião FIlho para governo do Paraná

Partido definiu 66 nomes para a disputa legislativa

O Partido dos Trabalhadores do Paraná (PT-PR) realizou convenção para definir suas candidaturas legislativas e majoritárias. O encontro definiu apoio a Requião Filho (PDT), como candidato ao governo do estado. Já a ex-ministra Gleisi Hoffmann é a indicada para a primeira vaga ao senado da coligação. A segunda vaga indicada fica com o ex-deputado federal Doutor Rosinha (PT). As indicações do PT devem ser confirmadas no dia 5 de agosto, na convenção que confirma a coligação do campo de esquerda no Paraná.

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10:08Podemos com Moro

Da assessoria de Sergio Moro

A pré-campanha de Sergio Moro (PL) ao Governo do Paraná ganhou um importante reforço neste sábado (25). O Podemos oficializou apoio ao projeto liderado por Moro e passa a integrar a aliança formada pelo PL e pelo Novo para as eleições de 2026.

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