7:22Perigo da IA não vem dos robôs, mas de nós

por Sérgio Rodrigues, na FSP

Filósofa diz que humanidade corre o risco de se perder no próprio reflexo

Em seu livro mais recente, “The AI Mirror” (O espelho da IA), do ano passado, a filósofa americana Shannon Vallor sustenta que o perigo oferecido pela inteligência artificial é muito diferente do que se costuma imaginar.

O “risco existencial” para nossa espécie não viria da progressiva substituição de gente por máquinas, geradora de desemprego e, no limite, de nossa extinção. O perigo estaria em nós mesmos, em nosso enamoramento pela imagem que a IA reflete, como o de Narciso em seu lago.

Especialista em ética da tecnologia, a autora acredita que, se não abrirmos o olho, veremos “os poderes e virtudes mais vigorosos da espécie –nossa capacidade de pensamento criativo, ambição moral, imaginação política e, acima de tudo, sabedoria– serem afogados no espelho da IA”.

Afogados porque rendidos, entregues de graça ou em troca de miçangas coloridas. Terceirizados, por narcisismo e preguiça, a algoritmos que se baseiam no que decidimos no passado para decidir em nosso nome no futuro.

Decidir tudo: escolher gente para vagas de emprego, prender gente com base em reconhecimento facial, dosar fluxos de socorro humanitário para populações flageladas, resumir um grosso relatório em meia página.

Mas qual seria o problema disso tudo, ferramentas que podem ser tão úteis na solução de problemas? Segundo a autora, o risco é nada menos que a estagnação da espécie.

Junto com o poder de decidir, estamos abrindo mão do domínio dos próprios meios para a tomada de decisões: escrever, fazer contas, projetar, raciocinar, escolher. Chafurdamos cada vez mais no pântano de nosso próprio vômito de referências recombinadas.

Todas as tecnologias, argumenta Vallor, sempre desafiaram moralmente os seres humanos, levando-os a conceber novos valores e formas de viver em sociedade. A seta sempre apontou para o futuro –até agora.

“Precisamos abraçar, renovar e aprofundar esse aprendizado moral”, prega a autora, “porque a IA representa uma forte tentação de esquecê-lo, aceitando em seu lugar um reflexo pálido e estático daquilo que um dia soubemos a nosso respeito”.

Para agravar o problema, esse risco de autoencarceramento no passado ocorre num momento crítico, quando mais precisamos de imaginação e engenho para lidar com um futuro que, na melhor das hipóteses, será de desafios imensos.

“Estamos diante de crises planetárias e civilizacionais que a humanidade nunca enfrentou antes”, escreve Vallor. “Você planejaria sua escalada de uma montanha perigosa e desconhecida olhando pelo espelho, para aquilo que ficou para trás?”

Eu posso garantir que não. Como também não embarcaria na modinha dos últimos dias, tão forte que sobrecarregou o sistema do ChatGPT, de se ver retratado no traço artesanal do Studio Ghibli.

É que gosto demais dos longas de animação deles para que a trivialização algorítmica de um trabalho artístico maior —feita sem o pagamento de direitos autorais e reeditada pelo público até a náusea, em troca de meio teco de endorfina– me pareça, sob o disfarce da diversão inocente, menos que uma estupidez e um crime.

6:54A liberdade do pensamento

por Célio Heitor Guimarães

Um novo ano letivo começou em meados de fevereiro ou início de março. E com ele novo ano de sofrimento para milhões de crianças deste país. Nossas escolas, em sua absoluta maioria – como sabem os que se preocupam com o tema – são um fracasso. Ensinam não o que as crianças gostariam de aprender, mas o que alguém ou um bando de burocratas decidiu que elas precisam aprender. Em regra, um monte de inutilidades sem nenhuma importância para a vida, mas indispensáveis para o vestibular – aquela infame máquina de triturar jovens.

O meu querido Rubem Alves, que dedicou a vida toda à educação, garante que as escolas odeiam os alunos. Não fosse assim – justifica –, não formariam apenas rebanhos de ovelhas, todas balindo igual, todas pensando igual. Permitiriam que cada criança tivesse os seus próprios pensamentos e não as castigaria por pensar diferente e não ser ovelha de rebanho.

Não por acaso, me comovo toda vez que assisto ao belíssimo filme “Fernão Capelo Gaivota”, calcado na obra de Richard Bach e ainda disponível em DVD. Pobre Fernão, tão sonhador, tão solitário e tão incompreendido!… 

A grande Adélia Prado tem opinião semelhante: “Fosse terrorista, raptava era diretor de escola e dentro de três dias amarrava no formigueiro, se não aceitasse minhas condições”.

Coitado do diretor, a culpa não é dele. Nem dos bravos e dedicados professores, tão vítimas – se não mais – quanto os alunos. A culpa é dos projetos, programas e métodos de educação inventados por aqueles burocratas de Brasília, que nunca foram crianças ou simplesmente não gostam de crianças. Por isso, querem transformá-las logo em adultos, entupindo-as de conhecimentos inúteis que logo serão esquecidos, porque – como também ensina Rubem Alves – a mente não guarda o que não lhe interessa e não tem utilidade.

Aconteceu comigo. Nos tempos de grupo escolar, fui obrigado a decorar todos os afluentes, da margem esquerda e da margem direita, do rio Amazonas e a uma enxurrada datas desimportantes da história do Brasil. Depois, no ginásio, fui apresentado ao máximo divisor comum, à regra de três, aos logaritmos e às fórmulas químicas. Para quê? Jamais precisei de uma delas em toda a minha carreira de advogado e jornalista. 

“Aprender por aprender é estupidez. Somente os idiotas aprendem coisas para as quais não têm uso” – diz Rubem. E emenda: “Os ditos ‘programas’ escolares se baseiam no pressuposto de que os conhecimentos podem ser aprendidos numa ordem lógica predeterminada. Ou seja: ignoram que a aprendizagem só acontece em resposta aos desafios vitais que estão acontecendo no momento da vida do estudante. E isso explicaria o fracasso das nossas escolas. Tanto quanto o sofrimento dos alunos e a sua justa recusa em aprender”.

Mestre em metáforas, Rubem lança mão de um dito popular, que diz ter grande sabedoria, para ilustrar o seu pensamento. É aquele que diz: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencê-la a beber água…”. Explica: “Se a égua não estiver com sede, ela não beberá água, por mais que o dono a obrigue. Mas, se estiver com sede, ela, por vontade própria, tomará a iniciativa de ir até o ribeirão”. Aplicado à educação: “É fácil obrigar o aluno a ir à escola. O difícil é convencê-lo a aprender aquilo que ele não quer aprender…”

Pois é, não aprendem e ainda passam a sentir raiva das escolas.

Toda criança é curiosa por natureza. Quer e gosta de aprender. Só que as escolas tiram-lhe o encanto. Não ouvem nem lhe respondem as perguntas. Preferem atormentá-la com respostas que ela não quer saber, mas que os programas oficiais dizem que ela precisa aprender.

Rubem Alves afirma, como pleno conhecimento de causa, que as crianças têm sede de conhecimento. Mas adverte que “sua sede não se mata com água de um mesmo ribeirão. Elas querem águas de rios, de lagos, de lagoas, de fontes, de minas, de chuvas, de poças…”

Às crianças de hoje, especialmente àquelas deste novo milênio, não basta ensinar o que o passado nos legou. O importante para elas, mais do que qualquer coisa, é que se lhes abra o horizonte aparentemente vazio e as incentive a pensar livremente. E se pais e professores não souberem responder as suas perguntas, já farão muito se não atrapalharem o pensamento delas.

 

17:33POEMA DO FERRO E DO SANGUE

de Lúcio Cardoso

Esqueceram os campos revolvidos
onde vegetam perdidos
os ossos obscuros
calcinados
de dez milhões de mortos.

Esqueceram as cruzes improvisadas
erguendo para o alto
preces de galhos retorcidos.

E esqueceram o rumor das granadas
revolvendo a terra e os vivos
devorando os mortos
destruindo.

16:01Janelas de avião são para crianças

por Arnaldo Correia

Uma das discussões mais estúpidas que o Brasil já promoveu foi sobre a passageira de um avião que se recusou a ceder seu assento na janela para um menino de três anos que chorava pelo lugar que não era dele.

O debate passou sobre a falta de empatia da passageira, a falta de educação da criança e a exposição de todos nas redes sociais por um vídeo gravado.

Poltronas nas janelas dos aviões deveriam ser, preferencialmente, para crianças. Para um adulto pouco importa a janela, o meio ou corredor, nada disso muda sua vida. Ainda mais num voo de cerca de uma hora, como era o da discussão que viralizou nas redes sociais e foi destaque nas TVs.

Especialistas em direito, psicólogos, mães, influencers e viajantes gastaram horas discutindo essa bobagem sob a luz do direito do consumidor, direito aeronáutico, psicologia infantil e maternidade, exposição indevida de imagem e o compartilhamento de conteúdo na internet.

Uma criança que chora para se sentar à janela do avião está apenas sendo criança. A passageira não era obrigada a ceder seu lugar, mas poderia ter dado esse presente ao garotinho.

Uma criança na janela de um avião está descobrindo um universo. A decolagem, a subida da aeronave, o início da rota, o aeroporto e a cidade sumindo lá embaixo, a entrada nas nuvens, a flutuação sobre um mundo branco de algodão. Para uma criança, isso é magia, sonho, descoberta. Sua vida nunca mais será a mesma após uma viagem na janela de um avião.

Voei pela primeira vez com 22 anos de idade e tive esse impacto todo. Imaginem uma criança!

Hoje, nem me importo mais onde sento. Não vejo diferença alguma em passar uma hora ou duas na poltrona do corredor, do meio ou da janela.

Aliás, uma vez cedi a passagem de primeira classe para uma amiga e viajei na econômica, para a China! Sim, eu fiz isso. O casal de amigos tinha uma passagem de primeira classe para o marido e assento econômico para a esposa. Na fila do embarque, estavam num dilema na minha frente sobre quem e quando iria de primeira classe, como revezariam os lugares na rota Guarulhos a Xangai, com escala em Dubai.

Não resisti e entreguei minha primeira classe para a esposa do amigo. Eles relutaram em aceitar, mas insisti, disse para aproveitarem a viagem juntos. Eu estava sozinho e não me importava, iria ler praticamente a viagem inteira e já era minha terceira vez voando para a Ásia, sempre na econômica.

O que acho ainda mais absurdo é o Brasil inteiro discutir algo tão banal por semanas. Num país de dois feminicídios, 200 estupros e 700 casos de violência contra a mulher por dia, é o desejo de uma criança de sentar na janela do avião que gera o debate mais acalorado do ano.

Gente, vamos resolver isso de forma preventiva, tornando assentos na janela dos aviões preferenciais para crianças. Enquanto a garotada sonha voando sobre camadas de algodão, vamos debater problemas verdadeiros.

15:20Ana Julia pede substituição de Ricardo Arruda

O deputado estadual Ricardo Arruda (PL) entrou na mira da deputada Ana Julia Ribeiro (PT), sua companheira na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa. Ela pediu a substituição dele por conta das ausências nas sessões – ele faltou às últimas quatro. O regimento interno determina a perda de cargo em caso de ausência em três reuniões. “A ausência recorrente compromete a eficiência e a representatividade da comissão. Precisamos garantir uma atuação parlamentar responsável e comprometida”, afirmou Ana Júlia.

 

15:02Claudio Stabile é o novo diretor-presidente da Fomento Paraná

Da assessoria de imprensa da Fomento

O advogado Claudio Stabile teve o nome aprovado pelo Banco Central do Brasil e foi empossado nesta quarta-feira (2) como novo diretor-presidente da Fomento Paraná.
Graduado em Direito e com formação qualificada por pós-graduações e especializações na área do Direito, Stabile traz consigo a experiência obtida no setor público nos últimos 20 anos. Entre outros cargos, foi secretário de Estado da Administração e Previdência, diretor-presidente da Sanepar e diretor Financeiro e Administrativo do Serviço Social Autônomo Paranacidade.
O novo diretor-presidente já tem bom conhecimento das atividades da Fomento Paraná, pois foi membro do Conselho de Administração da instituição, entre 2014 e 2017.

11:11Sem propósito

Não funciona assim. Em Foz do Iguaçu, passados três meses da posse do general Silva e Luna (PL) na prefeitura, uma onda com origem na Câmara tenta mudar uma peça no secretariado. O alvo é o economista Sérgio Caimi, titular do Meio Ambiente. O nome colocado na berlinda é o do ex-vereador Kalito Stockel (PDT), ex-líder do prefeito anterior que coordena uma ONG ambiental. Ele tem trânsito na prefeitura, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa – e qualquer mudança agora só existe no reino da especulação sem propósito.

10:25Endeusamento precoce

Do correspondente esportivo

Mestre Tostão disse que Vitor Roque foi precocemente valorizado e endeusado. Verdade, mas o Atlético Paranaense pagou R$ 26 milhões ao Cruzeiro e um ano depois vendeu por R$ 400 milhões ao Barcelona. Se ele ainda não mostrou na Europa que vale o caminhão de dinheiro e agora está no Palmeiras, isso é uma coisa que não merece discussão na Baixada.

10:00A PEC e os onze Supremos

Do senador Oriovisto Guimarães (PSDB-PR)  sobre a PEC 8/2021, de sua autoria, que limita decisões monocráticas no STF e outros tribunais superiores:

“Se essa PEC for aprovada, ela muda completamente a atuação do Supremo Tribunal Federal. E é isso que nós, parlamentares, temos que fazer: criar leis que enquadrem o Supremo, que façam com que ele trabalhe como um colegiado e não como 11 ministros isolados, como se tivéssemos 11 Supremos Tribunais Federais”.

8:50Direitos no fundo do poço

por Cláudio Henrique de Castro

A relativização de tudo também está afetando o direito.
Tudo pode ser, tudo é permitido e o impossível e impensável acontece.
As palavras não têm mais valor, os fatos não são verdadeiros e as verdades são relativizadas.
A era do absurdo bate às portas do Direito.
É verdade que um magistrado fez uma audiência jogando golfe?
Uma concreta tentativa de Golpe de Estado foi relativizada e chamada de simples manifestação, com velhinhas, de bíblias, num grande piquenique?
A ditadura militar que assolou o país por 21 anos é conceituada como Revolução pacífica e ordeira?
Uma pasta de dentes que causa irritação na boca das pessoas é tirada de circulação pela Anvisa, mas em seguida é permitida sua venda novamente?
Um hambúrguer de Picanha que não tem picanha, mas em letras pequeninas consta “sabor de picanha”?
O leite condensado que não é composto de leite, mas de um suco lácteo, sabe-se lá o que seja isso?
O trabalhador agora virou pessoa jurídica, recolhe impostos, manda no seu nariz, mas deve obediência ao seu patrão, deve cumprir horários e tudo mais?
O Sindicato das Instituições de Ensino Superior agora quer retirar os direitos da convenção coletiva consolidados há mais de 30 anos, e pensa que está correto, todo ano aumentando as mensalidades em índice muito maior aos minguados reajustes dos docentes?
As emendas parlamentares secretas passam de 200 bilhões, sem nenhuma prestação de contas ou transparência da destinação dos seus destinatários?
Comemora-se a Constituição de 1988, mas será que quando a extrema direita tomar a maioria do Senado Federal fará picadinho dos direitos fundamentais?
Que mundo é este, onde os direitos não valem mais nada e estão mergulhando no fundo do poço?

8:32Racha

No Centro Cívico já se ouve com frequência que o governo está rachado e que isso é péssimo para os planos de Ratinho Junior. A conferir.